por Associação Suíço Valesana do Brasil. 28/06/2026
CRÔNICAS DE VIAGEM – 4/2016
ODE AO SAPATO
Adonis V. Fauth
Escrita em Paris, 28.10.2015
Diz o ditado que “panela velha é que faz comida boa”.
Parafraseando, diria que “sapato velho é que faz a viagem boa”.
Agora estou me despedindo desse par de velhos guerreiros que me conduziu por incríveis lugares do mundo. Subiu escadas e montanhas, andou por terra, areia, ruas barrentas e asfalto queimando as suas solas e entranhas, caminhou por calçadas boas e ruins, por corredores limpos ou nem tanto, entre flores ou lixos não recolhidos. Andou da China de Mao à Espanha de Franco, das Arábias ao Vietnam, de Bancock a Regensburg. Sentiu a fofura de tapetes e calçou polainas para não machucar assoalhos seculares em castelos e chateaus da França a São Petesburgo. Passeou em jardins franceses, ingleses e chineses, entre as flores de Mainau às tulipas de Keukenhof. Chegou em jardins, templos, mesquitas e pagodes, de Chartres à Abu-Dahbi, de Shangai à Coréia, às vezes aguardando no lado de fora as orações de seu dono.
Andou de balão na Capadócia, conduziu seu dono por ruelas da velha Europa e por avenidas da moderna Dubai. Empoeirou-se em vinhedos de Borgonha à Austrália, do Chile à Deutcheweinstrasse, gelou os pés curtindo a beleza da Noruega ou da Nova Zelândia e esquentou-se no asfalto de estradas calorentas. Incrivelmente, espetou-se em tachinhas nas esnobes calçadas da Champs Elysées, mas flanou alegremente pelos bairros parisienses. Amassou latinhas de cerveja e de Coca Cola pelo mundo afora.
Conheceu o Museu do Calçado na Alemanha ( ¹ ). Gostaria de ficar ao lado dos sapatos da Merkel ou do tênis do Boris Becker, mas seu dono é um simples viajante brasileiro. Não merece tanto. Então, seu destino tornou-se cruel: ao invés do pedestal do museu de honra, uma prosaica lata de lixo, sem bandas e fanfarras.
Menos mal que em Paris, patrimônio do Mundo.
Mundo que conheceu como poucos, cruzando por céus, rios e mares nem tanto navegados.
Associação Suíço-Valesana do Brasil